Drogas, uma chispa de esperança

No ranking da cocaína o Brasil exerce triste liderança. O País é hoje o maior mercado consumidor da droga da América do Sul e provavelmente o segundo maior das Américas. O Brasil, infelizmente, tem não apenas uma crescente demanda doméstica, mas é um corredor de distribuição mundial de drogas. As conseqüências da assustadora escalada das drogas podem ser comprovadas nos boletins de ocorrência de qualquer delegacia de polícia. De fato, o tráfico e o consumo de drogas estão na raiz da imensa maioria dos assassinatos. E o que é pior: a idade das vítimas e dos criminosos é cada vez menor. A detenção de crianças, algumas com menos de 10 anos, com papelotes de cocaína e cigarros de maconha é uma triste rotina nas rondas policiais. O fato revela um dado preocupante na estratégia dos traficantes: a utilização de mão-de-obra infantil no esquema de distribuição das drogas.

Observa-se, lamentavelmente, um crescente movimento a favor da descriminação das drogas, sobretudo da maconha. Bandeira freqüentemente agitada em certos setores da mídia e em alguns redutos de profissionais da saúde, a descriminação não ajudará em nada. Ao contrário. Como afirmou o respeitado psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), "os artigos recentes mostram de uma forma inquestionável que o consumo de maconha aumenta em muito o risco de os jovens desenvolverem doenças mentais". E sublinhou o especialista: "Do meu ponto de vista, essa geração que consome maiores quantidades de maconha do que a geração anterior pagará um alto preço em termos de aumento de quadros psiquiátricos."

A verdade, caro leitor, precisa ser dita. Não se podem admitir argumentos politicamente corretos quando o que está em jogo é a vida das pessoas. Na verdade, o hediondo mercado das drogas está dizimando a juventude. Ele avança e vai ceifando vidas nos barracos da periferia abandonada e no trágico auê dos bares e boates freqüentados pela juventude bem-nascida.

Movimenta muito dinheiro. Seu poder corruptor anula, na prática, estratégias meramente repressivas. A prevenção e a recuperação, as únicas armas eficazes a médio e longo prazos, reclamam um apoio mais efetivo do governo e da iniciativa privada às instituições sérias e aos grupos de auto-ajuda que lutam pela reabilitação de adictos.

Tenho acompanhado o excelente trabalho realizado por alguns serviços especializados. O Grea (setor vinculado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo - www.usp.br/medicina/grea) e a já mencionada Uniad (da Universidade Federal de São Paulo - www.uniad.org.br) desenvolvem importantes esforços na recuperação de adictos. Admiráveis têm sido as atividades promovidas pelos grupos de Narcóticos Anônimos (www.na.org.br) e Amor-Exigente (www.amorexigente.org.br) e a bem-sucedida estratégia adotada pelas comunidades terapêuticas. Sem uso de medicamentos e apostando num conjunto de providências que vão às causas profundas da dependência, essas comunidades têm obtido bons índices de recuperação. Visitei algumas dessas instituições. Registro, entre outras, duas entidades de referência: a Comunidade Terapêutica Horto de Deus, em Taquaritinga (www.hortodedeus.org.br), e a Fazenda do Senhor Jesus, em Campinas (www.apot.org.br), ambas no interior de São Paulo.

Preocupado, com razão, com a multiplicação de centros de recuperação inadequados e pouco sérios (existem hoje mais de 2 mil comunidades terapêuticas no Brasil), o governo estabeleceu normas mínimas para o funcionamento das comunidades terapêuticas. Tais normas foram definidas na Resolução n.º 101/01 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Estado tem o dever de fechar as arapucas, mas não pode, num exercício de irresponsável precipitação, acabar com experiências bem-sucedidas. É preciso separar o joio do trigo. As comunidades terapêuticas idôneas precisam de um prazo maior para se adequar às exigências da Vigilância Sanitária (segundo uma fonte do governo, esse prazo será dilatado) e, sobretudo, receber ajuda financeira para o bom desenvolvimento do seu trabalho. Recentes debates na Câmara dos Deputados sugerem que as comunidades terapêuticas, bem como as demais instituições idôneas que trabalham na recuperação de adictos, possam, num futuro próximo, receber recursos provenientes do Fundo Nacional Antidrogas e do Sistema Único de Saúde (SUS). É sempre melhor apoiar o que já funciona e bem do que cair na tentação de criar novas estruturas.

Conversei, recentemente, com o general Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, secretário nacional Antidrogas. Manifestou-me o seu entusiasmo com o trabalho das comunidades terapêuticas sérias. Segundo Uchôa, essas instituições "são importantes iniciativas da comunidade para o acolhimento de dependentes químicos que por alguma razão não tiveram acesso a outros programas de tratamento. No Brasil, hoje, são responsáveis por boa parte da assistência ao dependente e seus familiares".

O secretário Uchôa é um homem competente e bem-intencionado. E a política antidrogas do governo brasileiro tem recebido sucessivos elogios da comunidade internacional. Por isso, algo de novo pode estar despontando no horizonte da luta contra as drogas no Brasil.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores, professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil. Colaboração de Vera Gelas, coordenadora de AE em Marília

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