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Exigência ou Disciplina
Entrevista feita com a advogada Edineuza Gomes Guedes de Paiva, coordenadora regional do Rio Grande do Norte, cidade de Natal. Ela é funcionária da 1a Vara da Infância e da Juventude de Natal e seu esposo é o Juiz da 1a Vara.
AE - Como vocês começaram com AE em Natal?
Edineuza - Começamos há três anos. Nós tínhamos uma dificuldade, uma angústia muito grande porque muitas mães buscavam a Vara de Infância pedindo socorro, por causa dos filhos dependentes químicos. Não havia muito o que oferecer. Natal é uma cidade ainda um pouco carente, com relação à questão da dependência química. Até que um dia um casal me falou do Amor-Exigente.
AE - Qual foi o primeiro passo?
Edineuza - Fiz um curso em Campinas, conheci a proposta, levei para a Vara da Infância, analisei com meu esposo e começamos a colocar o Amor-Exigente para atender a demanda da Vara da Infância, que já era grande e cresceu ainda mais. Atualmente, atendemos toda a cidade de Natal e começamos no interior do estado do Rio Grande do Norte, com um grupo em Parná-Mirim. Na capital,o grupo tem uma média de 50 frequentadores, de familiares; os jovens são em média 20 por semana. O Amor-Exigente em Natal tem uma grande parceria com a 1a Vara da Infância, que atende crianças de zero até 21 anos de idade e, principalmente, adolescente infrator; e temos todo o apoio do Tribunal de Justiça.
AE - Então não foi nenhum motivo particular que te levou ao AE?
Edineusa - Não foi nada particular na minha família. No entanto, o Amor-Exigente causou uma mudança na minha casa. Nós temos tr~es filhos. Antes eu agia de forma diferente de hoje, eu acho que melhorou muito nosso relacionamento. A questão da Exigência ou Disciplina, que é o princípio deste mês, por exemplo; hoje os meus filhos sabem porque eu coloco as regras em casa. Antes as regras eram impostas, não explicávamos os motivos, pois apenas sabíamos que devíamos colocar as regras, agora temos a clareza, através do Amor-Exigente, que nos deu essa visão da importância da disciplina. Hoje, após esse trabalho de conscientização, sabemos explicar e eles também estão conscientes.
AE - No que você age diferente hoje?
Edineusa - Eu tenho coragem de chegar para um filho e dizer que o respeito no que ele quer fazer, mas que o caminho que ele quer seguir não é válido. Antigamente eu preferia me calar, chorava, rezava. Era mais passiva. E, apesar de não termos problemas com a dependência química diretamente, temos parentes que enfrentam esse problema. Meu pai foi alcoolista e meu esposo tem dois irmãos que são dependentes químicos, então, indiretamente, isso sempre nos atingiu, queríamos ajudar e não sabíamos como. Hoje sabemos.
AE - Qual o significado de Exigência ou Disciplina?
Edineusa - Exigência significa o mesmo que disciplina, ordem, organização, limites e regras dentro da nossa casa, da família; cada qual tem que assumir e desempenhar seu papel; a mãe, o pai, os filhos, senão vira uma bagunça e de repente não se sabe quem é quem. O ser humano precisa dessa disciplina, pois, desde que nascemos, ficamos dentro da barriga da mãe e já aprendemos a noção de limite para a vida. Quando bebês, temos horário acertado pelo próprio relógio biológico, para as refeições, o banho, tudo isso é natural. Quando crescemos, devemos continuar agindo naturalmente, com disciplina. Assim não haverá problemas. Existem pessoas que vêem a disciplina como um castigo, ela é necessária para a organização da nossa vida. Como pais, agimos com os nossos filhos desde pequenos em manter horários e regras dentro da nossa casa, quando eles crescem, não vão estranhar a disciplina que deve haver para enfrentar a vida aí fora.
AE - E como é a visão dos jovens?
Edineusa - Temos vários jovens, que confessam que gostariam de receber um não do pai, da mãe; mas muitos pais já nem se incomodam com a hora que eles chegam das festas, não procuram saber com quem eles saem; os jovens querem liberdade, mas com segurança, podem até espernear, mas eles se sentem seguros quando têm regras claras para seguir.
Os pais devem ter essa consciência de que a disciplina está dentro da nossa filosofia: "Eu o amo, mas não aceito o que você está fazendo de errado". É o comportamento do jovem ou do dependente químico que não aceitamos, não é ele como pessoa; nós amamos nossos filhos, os nossos jovens, os nossos dependentes químicos. Mas, quanto ao comportamento inadequado, que não aceitamos, vamos colocar limites.
AE - E, na sua opinião, como estão agindo os pais em geral?
Edineusa - Eu sinto que os paus colocam disciplina nos filhos até determinada idade, depois acham que precisam dar liberdade para os filhos; nas reuniões de AE, os pais colocam suas dificuldades em colocar esse princípio em prática e as conseqüências são que os filhos se perdem, pois já estavam acostumados com a disciplina, pois desde criança aprendem que não podem tudo, que têm limites; tem pais que dizem que vão dar para os filhos tudo o que não tiveram. Isso é muito perigoso. Os jovens se rebelam, desviando o sentido da disciplina, da exigência, da organização do lar, como se fosse um castigo; deixam então cair no esquecimento. Geralmente os pais têm muito medo de falar para os filhos o que sentem, o que acham que está errado, de dar orientação. Eu sempre sigo um conselho de minha mãe que dizia: "Haja o que houver, o que você tiver que dizer para o seu filho, diga, mesmo se ele disser que você é chata, que você está é arcaica, mas diga, porque lá na frente ele vai perceber que a mãe já o havia alertado". É melhor você pecar por falar do que pecar por omissão, senão ainda vão te cobrar. É bom que haja esse diálogo aberto; as regras da casa têm que ser claras. A questão dos papéis é fundamental. Pais e filhos não são iguais.
AE - Então trata-se de uma reeducação?
Edineusa - É verdade. O AE ensina uma forma nova de organizar a família, sem ser autoritário, pois é aí que está o problema. A maioria dos pais confundem autoridade de pai e mãe, papéis definidos, com autoritarismo, imposição, grito, violência; as conseqüências são raiva, mágoa, falta de respeito; mais violência verbal, psicológica e até física. Tudo o que degrada a natureza humana. O AE nos ensina a sermos autoridades como pais, sem sermos autoritários, de colocar as coisas com covicção, mas com serenidade, paz; sabendo que haverá reações quando se tem que colocar limites, mas equilibrados, conscientes de que estamos aprendendo a fazer as coisas devagar, com calma, sem exigir além do que você e sua família vão poder praticar e cobrar, fazendo o melhor.
Nós temos que aprender a ser disciplinados, para que nossa vida se torne mais organizada e podermos dar exemplos, para então cobrarmos dos filhos.
AE - Quais os planos no Rio Grande do Norte?
Edineusa - A 1a Vara da Infância vai lançar agora em Natal dois programas voltados ao atendimento para crianças, pois temos muitos casos de crianças com 9, 10 anos usuárias de crack e não existe no País um trabalho específico para crianças com esses problemas. Existem abrigos,assistência. Nosso trabalho sempre foi de Recuperação e esse ano já estamos avançando na Prevenção. Os dois primeiros anos de Amor-Exigente em Natal foram só para atender a demanda de mães em desespero para recuperar seus filhos.
Esse ano já estamos desenvolvendo um trabalho preventivo em três colégios, fizemos Curso de Capacitação para Professores em 13 escolas; estamos implantando a proposta de AE em escolas particulares e estamos com listas de escolas municipais e estaduais interessadas em implantar Amor-Exigente. O AE em Natal participa do Fórum Estadual Permanente de Combate às Drogas; eu fui eleita como uma das coordenadoras dessa diretoria, representando o Amor-Exigente; também atuamos junto ao Comen de Natal e desenvolvemos um trabalho na Polícia Militar.
Em Marília, o Grupo de Amor-Exigente reúne-se às segundas-feiras, ás 20 horas, no Salão da Igreja Nossa Senhora de Fátima.
Colaboração de Vera Gelás, coordenadora de AE em Marília
DIGA NÃO AS DROGAS!
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