Conversar é preciso

Bater papo, trocar idéias, palpitar, contar e ouvir casos. Conversa fiada constrói pessoas e histórias de vida. A mesa de refeições é o melhor lugar para jogar conversa fora. O fato desse hábito ter caído em desuso, sem grita, teve consequências. Mudou o jeito de cada um de nos funcionar no mundo. Sem essa rotina caseira, podemos nos perder no turbilhão da vida moderna, que exige aptidão para o exercício do livre arbítrio esteio do existir socialmente. O bate-papo contínuo com família e amigos propicia testar escolhas, avaliar-se e corrigir-se. É o afeto unido à família, que permite o desenvolvimento de indivíduos singulares, que nem por isso serão rejeitados pelo mundo. A interação desses indivíduos singulares gera famílias também originais. Na falta desse arcabouço familiar, a pessoa enfrenta uma tarefa difícil para se inserir no mundo. Não poucos desistem. A sociedade em que estamos todos imersos é exigente e paradoxal. Quer o singular com capacidade de adaptação.

Juntos em volta da mesa, aprendemos o significado dos olhares, dos gestos, das entonações. Se hoje interpretamos mal, não tem importância. O amanhã e o depois de amanhã, essência da vida familiar, vai permitir que tudo se esclareça. É ainda em volta da mesa que praticamos agüentar interrupções e críticas, pois o clima é afetivo. E é aí que os queridinhos ostentam privilégios, caçulas toleram serem os últimos a saberem das coisas. É no “um dia depois do outro”, à mesa, que germinam as sementes do respeito mútuo. É aí que sacamos o valor dos elogios, evitando erros de avaliação. É onde percebemos o tipo de aliança entre mãe e pai, entre mãe e um certo filho ou filha, etc. é no constante feedback que encontramos na mesa, que elaboramos nosso “vir a ser”. É aí que dá a celebração do indivíduo de forma indolor.

Pois é, só que, esse mesmo mundo que pede pessoas conscientes, flexíveis e tolerantes, que a família gerou, é o que inviabiliza esse mesmo ritual.

A agenda escolar dos filhos, as exigências de trabalho, os cursos extras, os hábitos de entretenimento etc. concorrem com a possibilidade de interação em casa. Cada um tem seu horário de ir e vir. Mãe ou pai que quiser impor este ritual tropeçará com outras exigências igualmente suas, como trabalhar muito, estagiar cedo, estudar o máximo, informar-se permanentemente, divertir-se o quanto dá. Evocando o meu dia-a-dia de criança, vejo-me na minha casa. A gente se conhecia bem, nas profundezas da alma e nas coisas mais corriqueiras. Todos sabiam que eu gostava de sopa de macarrãozinho e que meu pai gostava de sopa de tomate. Quando chegava a sopa, sabíamos quem ia ficar contente e quem ia torcer o nariz. A vida é assim, não dá para contentar todos, mas nem por isso se saía para comer na esquina. No papo, qualquer um de nós era capaz de prever o rumo da conversa. A nossa escala de valores valoriza o bem pensar. Éramos tolerantes para quase tudo, menos para o mau uso da razão. Vejo até hoje como esse modo de ver o mundo me influencia.

Lá na minha casa, o empenho era mais importante que o sucesso e eu, até hoje, julgo assim. Outros valores encalharam no meu crivo crítico. Procuro descartá-los, por exemplo, certas atitudes elitistas. Quando estas me surgem à mente, e elas surgem, eu as jogo fora. Nem sempre dá, confesso. A maior herança dos jantares diários é minha aversão ao fanatismo e ao uso da força. Sou sensível para detecta-los. Como fanáticos não pensam, desqualifico-os. Nunca ninguém me disse lá em casa: não seja fanática. Fui tão bem treinada que até hoje não consigo sê-lo, pois qualquer atitude apontando nessa direção era descartada de imediato.

Não tenho dúvida: é das famílias conversadeiras, afetivas, tolerantes e prolixas que sai gente que escolhe bem e exerce o livre arbítrio. Sem isso, somos vítimas de qualquer regime de força. Livre arbítrio semeia liberdade, torna-nos capazes de nos esquivar da dominação que os fortes querem exercer.

Anna Verônica Mautner, psicanalista

Publicado em 04.11.2004 na Folha de S. Paulo

Colaboração de Lucila Costa, coordenadora regional de AE em Marília

 

 

 
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