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A droga mais perigosa
Nossa sociedade teme as drogas ilícitas. Maconha, cocaína, ópio, crack e
ecstasy, são os fantasmas que assombram os pais cada vez que seus filhos vão
para uma festa. Sem dúvida, são substâncias nocivas que causam dependência
física ou psíquica e, embora proibidas por lei, podem ser encontradas com
facilidade nas mãos dos traficantes, que estão em toda a parte.
O maior perigo, porém, não mora aí. O vilão dos vilões é o álcool e nem todo
mundo percebe isso. Vendido em larga escala, disponível em todos os
restaurantes, padarias, supermercados, residências, bares e casas noturnas
em geral, essa droga lícita tem feito vítimas em números astronômicos.
Está provado que o álcool causa dependência fortíssima. É mais fácil deixar
a cocaína do que a bebida, até porque esta última pode ser encontrada em
qualquer lugar e a qualquer momento, inclusive em casas de amigos e
parentes. A força de vontade do alcoolista em processo de cura tem de ser
redobrada para se livrar da tentaão. Além da dependência, o álcool é fator
inequívoco de criminalidade. Ignorando as leis e as recomendaões feitas
pelos meios de comunicaão, são muitas as pessoas que assumem a direão de
veículos automotores embriagadas, provocando acidentes, não raro, muito
graves. Há os que ficam agressivos sob efeito de bebidas alcoólicas e as
conseqências são percebidas nas Delegacias de Polícia: mulheres espancadas
por seus companheiros, brigas em bares, lesões corporais graves, homicídios.
Tudo provocado por essas bebidas perigosas, vendidas sem nenhum controle.
Os jovens têm sido as maiores vítimas. A proibião de venda de bebidas
alcoólicas a menores de 18 anos quase não vigora na prática. Fala-se muito
que a maconha, embora não seja uma droga pesada, deve continuar sendo
proibida no Brasil porque seria “a porta de entrada para outras drogas”..
Pois porta de entrada é o álcool, ou será que ninguém vê?
O cigarro é, também, uma droga lícita, que causa dependência e, a longo
prazo, pode levar à morte por câncer, problemas cardíacos e outras doenças.
A política de conscientizaão e combate ao consumo do cigarro é acertada e
deve prosseguir cada vez mais intensa. Mas é preciso reconhecer que o
tabaco, embora altamente pernicioso à saúde, não torna o dependente um
sujeito inútil, insuportável, improdutivo, incapaz de assumir qualquer
compromisso. O álcool, sim.
A bebida destrói famílias mais do que qualquer outra droga. É claro que
todas as substâncias entorpecentes, após algum tempo de uso, geram a mesma
desgraça. A diferença é que o álcool consome o indivíduo rapidamente,
tornando-o incapaz para o trabalho e insuportável na convivência. Por turvar
imediatamente a consciência, o alcoolismo é impossível de passar
despercebido; a primeira coisa que o dependente perde é o emprego, depois o
apoio da família, por fim, a própria vida.
Evidentemente, é possível fazer uso moderado de bebidas alcoólicas,
evitando-se o risco de chegar à dependência, quando há muita informaão
sobre o assunto e, pelo menos, algum controle sobre a comercializaão dos
produtos para menores e maiores. Não é o que se vê no Brasil. Por essa
razão, o problema do alcoolismo no País segue aumentando.
Não se propõe a proibião da venda de bebidas alcoólicas; nenhuma “lei seca”
até hoje deu certo. No entanto, o consumo completamente liberado como vem
ocorrendo não pode continuar. A exemplo do que se fez com o cigarro, cujas
embalagens trazem alertas sobre o perigo do uso regular do tabaco, é preciso
informar os consumidores dos perigos do excesso com relaão ao álcool, não
apenas para dirigir veículos. As embalagens das bebidas deveriam conter
avisos de que o álcool pode gerar dependência, sendo que o abuso também
provoca doenças.
Não é por outra razão que algumas universidades como a Unicamp e a USP estão
desenvolvendo projetos de “prevenão e reduão de danos” decorrentes da
ingestão de bebidas alcoólicas. O projeto piloto, testado há seis meses com
alunos da Unesp, diminuiu pela metade o número de acidentes de carro e o
baixo rendimento escolar causado pelo excesso de bebida. Esse tipo de
prevenão deveria ser generalizado.
O álcool precisa deixar de ser uma imposião ligada ao lazer. Tanto
adolescentes quanto adultos costumam ir a festas já pensando em consumir
bebidas alcoólicas. Embebedar-se é o objetivo principal de muitos. Já os que
não toleram o álcool ou simplesmente preferem evitar os seus efeitos são
pressionados a beber de qualquer jeito, sob pena de sofrer rejeião do
grupo, o que, para os inseguros, é desastroso. Mesmo entre os adultos, o ato
de sair para encontrar amigos implica, automaticamente, ingestão de álcool.
Quem não bebe sofre tanta pressão que chega a ser constrangedor. É esse
padrão social que precisa mudar. E quem optar pelo álcool, cuidado: não faça
dele uma razão de viver.
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